quinta-feira, 12 de novembro de 2020

O LAR VOLTOU A SER IGREJA!


Manuel J. Rocha
Vigário geral da Diocese
Há poucos dias fui sacudido por uma entrevista do Secretário Geral do Sínodo dos Bispos, antigo Bispo de Gozo (Malta), o cardeal D. Mário Grech, que despertou em mim a beleza e a atualidade do nosso Plano de Pastoral centrado na família. Dizia ele a dada altura: "A grande comunidade Igreja é formada por pequenas igrejas que se reúnem em casas. Se a Igreja doméstica falhar, a Igreja não pode existir. Se não houver Igreja doméstica, a Igreja não tem futuro! A Igreja doméstica é a chave que abre horizontes de esperança!"
Neste tempo em que discutimos como fazer as catequeses, como organizar as celebrações das eucaristias, como celebrar os batismos e os casamentos, os Crismas ou as Primeiras Comunhões, o cardeal, não omitindo estes com certeza, põe o acento tónico noutro lado, na Igreja doméstica "...que abre horizontes de esperança". Nós falamos da Igreja cá de dentro, feita de espaços limitados, número de cadeiras, superfície das salas e ele fala duma Igreja outra, aquela que o califa tinha encontrado com o decreto que pretendia fechar as Igrejas: "...Eu queria fechar a igreja em todas as ruas - dizia ele - mas, hoje, eu descobri que quando fiz esse decreto, uma igreja foi aberta em todos os lares."
Nós falamos da Igreja paroquial, espaço importante e sinal de unidade, mas que o tempo de pandemia nos convidou a fechar as portas ou a limitar os lugares; ele fala da igreja doméstica que é a casa de cada um de nós, sempre espaço habitado e presença humana feita família. É verdade que todos nós falamos da Igreja doméstica que é a família, todos a temos em grande empenho e apreço mas, de verdade, o nosso trabalho pastoral, em tantas situações e lugares, não passa por ela. E se passa, é para a convidar a ir à nossa Igreja.
Foi isto que me levou a pegar, de novo, no nosso Plano de Pastoral que foi feito para um tempo que não era este, e ver se, de verdade, ele nos pode ajudar a viver melhor os tempos que nos habitam e a descobrirmos horizontes de esperança. Então, ao folhear o nosso Plano e ao percorrer todos os pontos da Introdução, destacava este: "...A família cristã é a primeira e mais básica comunidade eclesial. Nela se vivem e se transmitem os valores fundamentais da vida cristã. Ela é Igreja doméstica. Aí os pais desempenham o papel de primeiros transmissores da fé aos seus filhos, ensinando-lhes, através do exemplo e da palavra, a serem verdadeiros discípulos missionários. Ao mesmo tempo, quando essa experiência de discipulado missionário é autêntica, uma família torna-se evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente em que se vive. A família vive a sua espiritualidade própria sendo, ao mesmo tempo, uma Igreja doméstica e uma célula viva para transformar o mundo". É um texto denso e rico onde sobressaem algumas ideias fundamentais: família como comunidade eclesial básica; os pais são catequistas pela palavra e pelo exemplo com o objetivo de fazer dos filhos, missionários. Assim, a família, torna-se evangelizadora de outras famílias que ajudam a transformar o mundo.
E o cardeal insiste: "Seria suicídio se, depois da pandemia, voltássemos aos mesmos modelos pastorais que temos praticado até agora". E concretiza: "Muita gente se preocupou por não receber a comunhão e mais ainda, na hora dos funerais na Igreja, mas não se preocupou em se reconciliar com Deus e com o próximo, ouvir e celebrar a Palavra, viver uma vida de serviço".
Assim, se outra coisa não teve esta "anormalidade normal" que vivemos, fruto de um vírus que desconhecemos o seu poiso, trouxe-nos esta novidade: oferecer-nos uma oportunidade de olharmos para fora, para a tal Igreja doméstica e vermos que é aí que pode estar um sinal da Igreja de hoje, aquela que Deus nos convida a descobrir e que foi o berço das primeiras comunidades cristãs: reuniam-se em suas casas e aí celebravam a Palavra e partilhavam a refeição.
Essa Igreja doméstica está aí. Basta recordar tantas experiências bonitas e variadas que a catequese em família (catequese familiar) encerra; os grupos de casais que continuam atentos a quem mais sofre; gente que, apesar das cautelas, continua a juntar-se para rezar; outros sempre mais atentos às necessidades dos irmãos. Uns evangelizadores dos outros pela palavra, pelo testemunho e pela oração. É "...a Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e filhas" na bonita expressão papa S. João Paulo II.
Podemos, pois, acolher este tempo como um kairós, dizia T. Halik: "...um momento oportuno para 'avançar para águas mais profundas' e procurar uma nova identidade para o cristianismo, num mundo que se transforma radicalmente debaixo dos nossos olhos".
E o lar voltou a ser Igreja, chave que abre novos horizontes de esperança.

Manuel J. Rocha, 
Vigário geral da Diocese de Aveiro

NOTA: Texto transcrito, com a devida vénia, do semanário diocesano "Correio do Vouga"

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