sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Covid-19: Que 'mundo' e que 'Igreja' estão em ocaso?

 Manuel António Coimbra
Vivemos numa época de globalização. Uma explosão em Beirute, pela sua dimensão, é notícia em simultâneo em todo o mundo. O resgate de uns miúdos que tinham ficado presos em grutas inundadas na Indonésia desencadeou uma onda instantânea de solidariedade pelo globo. A informação flui à velocidade da luz, conduzida pela fibra ótica. Pela televisão e internet, sabemos no momento o que se vai passando de bom e de mau, seja onde for.
O surgimento de uma pandemia como a que estamos a viver confinou cada um em sua casa. Tem impedido, principalmente os mais velhos, de estarem próximos dos seus amigos, dos seus familiares e de todo o mundo exterior. Não há abraços nem beijinhos. Conversa, só pela internet, nem sempre acessível! Esta situação é propícia a que cada um veja no outro um potencial agressor, mesmo que involuntário. Temos de nos “proteger” dos nossos familiares, amigos ou vizinhos. A “proteção” é o isolamento, pois a sociabilização pode matar. Como se o isolamento social não fosse uma forma de tirar a vida! Este clima não é só no meu bairro, é em todo o mundo. O planeta está empenhado na “guerra à Covid-19”. Esta “guerra”, como qualquer guerra, só pode despertar sentimentos de isolamento, medo e insegurança.
O isolamento desencadeia egoísmo primário, infantil, mesmo em adultos “esclarecidos”. Estes sentimentos geram segregação, muitas vezes por causas fúteis, radicalismos sociais e extremismos políticos. São a antítese dos ideais de confiança no próximo, esperança no futuro e de cooperação que têm feito avançar a civilização dos Homens. Num mundo em que as relações interpessoais de proximidade correm risco de entrar irreversivelmente em ocaso, onde os mais velhos não saem de casa e os mais novos crescem na ausência do sagrado, a Igreja tem de marcar a diferença. Não se pode fechar em templos de cadeiras dispersas nem em missas paroquiais de porta fechada. Não pode ficar à espera dos crentes. Essa Igreja está em ocaso e é urgente que se reinvente.

Manuel António Coimbra da Universidade de Aveiro

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NOTA: Texto transcrito, com a devida vénia, do sítio da Comissão Diocesana da Cultura

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