domingo, 10 de fevereiro de 2019

Aníbal Bola — Temos de viver com as nossas limitações

Aníbal Sarabando e Conceição, sua esposa
Aníbal Sarabando Bola, 71 anos, casado e com dois filhos, passou a vida no mar, em vários navios, como motorista marítimo. Só na primeira viagem é que trabalhou a fabricar óleo de fígado de bacalhau que há décadas se tomava como remédio, apesar do sabor horrível de que toda a juventude se queixava. 
Visitámo-lo há dias para saber como estava de saúde, uma vez que muita gente notou a sua falta no Cortejo dos Reis, em que sempre se envolveu com entusiasmo e certo da sua missão de membro ativo na comunidade católica da Gafanha da Nazaré. 
O Aníbal mantém a memória viva, apesar das suas limitações físicas ao nível da locomoção. Na conversa que mantivemos com ele, sentimos a sua alegria quando debitou recordações da sua meninice. A sua Missa foi sempre a da manhã, ao domingo, em que participava com seu pai, marnoto e lavrador. E de tal forma criou raízes, que até nem se sente muito bem noutras missas dominicais. 
Nessa Eucaristia cumpriu sempre as tarefas que lhe destinaram, executando-as com gosto. Mas a sua condição de marítimo obrigou-o a grandes tempos de ausência. «Gostava muito de ir à missa da manhã, onde desempenhava várias funções, coisa que já não podia fazer nas outras, onde outros paroquianos também colaboravam», disse.
O nosso entrevistado evocou depois a Festa de Nossa Senhora da Conceição, que se fazia a 8 de dezembro, «muito participada pelos marítimos que passavam algum tempo entre nós, para descanso». E garantiu-nos que era «uma festa mais importante do que a da Padroeira, Nossa Senhora da Nazaré, que se realizava no final do mês de agosto, um período de férias para muita gente. 
Contudo, o seu prazer de colaborar não se limitou ao serviço do culto. «Quando tinha mais saúde, ajudava na organização do Cortejo dos Reis, na confeção de almoços comunitários no Centro Mãe do Redentor, entre outras iniciativas, para angariação de fundos para as despesas da paróquia», frisou. 
Humildemente, reconheceu que procurou ser «um cristão pronto para certos serviços para os quais fosse convidado». Acrescentou, entretanto, com alguma tristeza no olhar, que agora, com a falta de saúde, já muito pouco pode fazer do que tanto gostava. E agora? — Perguntámos ao Aníbal. «Agora — ripostou ele, de pronto — só posso rezar… eu rezo muito». E acrescentou: «Eu gostava de ler, mas também já nem posso ler.» 
Recordou os priores e coadjutores da nossa paróquia até ao presente, com nomes e algumas das suas qualidades mais marcantes, frisou que trabalhou com todos, dentro das suas capacidades e disponibilidades de tempo, sublinhando que «uma pessoa, quando faz uma coisa, deve fazê-la com gosto». 
Voltando à sua realidade atual, com doenças que o afetam bastante, disse que «temos de viver com as nossas limitações». Falou da sua pena de não poder participar na missa, porque quando lá ia até regressava a casa «mais aliviado», e sobre o seu envolvimento, adiantou que «nós não trabalhamos na paróquia para que nos vejam», esclarecendo: «A Igreja para mim foi um bom caminho». 
Questionado sobre a forma como passa o tempo, garantiu-nos que o que mais gosta de ver na televisão é a sua equipa: O Benfica. E disse, com alma, «Já o meu avô e o meu pai eram do Benfica; toda a minha família é benfiquista!» Disse-lhe então que eu era do Sporting e o Aníbal, pondo de lado as eternas rivalidade, afirmou: «Também é uma grande equipa!» 
Olhando para a esposa, a Conceição, o Aníbal Bola confessou-nos: «A minha mulher é que trata de mim: prepara-me as refeições e dá-me a medicação; e depois ando por aqui.» 

Fernando Martins 

NOTA: Entrevista publicada no Timoneiro de fevereiro 

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