Mostrar mensagens com a etiqueta Fundadores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fundadores. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Nossa Senhora da Nazaré


Permitam-me a ousadia de incluir no capítulo “Fundadores” a nossa Padroeira, Nossa Senhora da Nazaré. Foi pessoa como nós, mãe solícita do Filho de Deus e nossa mãe também, catalisadora da aproximação à Boa Nova de Jesus Cristo, sinal visível da ternura e do amor, auxiliadora dos aflitos, protetora dos navegantes, congregadora dos desavindos, inspiradora da verdade, da justiça e da paz. 
Ao certo, não se sabe como nasceu esta devoção pela Senhora da Nazaré. Terá alguma ligação à Palestina e à então Vila da Nazaré, onde D. Fuas Roupinho, segundo a lenda, por ela foi salvo de morte iminente, segundo a lenda? 
O Padre Domingos, coautor do livro “Invocações Marianas na Diocese de Aveiro”, recorda a lenda que garante ter vindo a imagem da nossa padroeira da Palestina. «Após vários imprevistos foi posta [a imagem] numa pequena Ermida, conhecida por capela da memória, na antiga povoação de Nazaré», sublinha o antigo Prior da Gafanha da Nazaré. E dali, algum navegante a terá trazido para a Gafanha, quando não foi adquirida a algum comerciante de imagens e objetos antigos.
Por sua vez, o Padre José Fidalgo, no Timoneiro de Julho de 1991, afirma que «é quase certo que estamos perante a ligação ao fator pescas». E acrescenta: «Os homens da Nazaré desceram e com toda a segurança, podemos afirmar, que foi alguém dessas paragens que trouxe, para a nossa vila, a imagem do século XVII que hoje existe na paróquia.»
Entretanto, no mesmo artigo, afirma que o Prior Sardo não autorizou a introdução de outra invocação a Nossa Senhora. Frisou que o nosso primeiro prior «era muito devoto da Virgem Maria e, talvez ninguém saiba, prova disso foi a sua ida a Lurdes. No entanto nunca introduziu aqui o culto a Nossa Senhora de Lurdes. Manteve a devoção a Nossa Senhora da Nazaré, em ligação à Imaculada Conceição».
É oportuno dizer, ainda, que a primeira irmandade assumiu a Padroeira como sua protetora, e que o culto a Nossa Senhora da Nazaré foi sempre seguido pela nossa gente. 
A festa anual, no último domingo de Agosto, exclusivamente religiosa ou mais popular, com música, arraial, foguetes, missa solenizada e procissão uniu, com toda a naturalidade, os gafanhões e quantos nesta terra se fixaram, tornando-se iguais a nós, em direitos, obrigações e devoções.

Fernando Martins

quinta-feira, 30 de março de 2017

Fundadores: O Povo

À espera do moliço
Construção de um dique na Gafanha

Na evocação de efemérides ocupam, por norma, as cadeiras de destaque os chefes naturais e oficiais, relegando-se para segundo plano, quando não são atiradas para o baú de inutilidades, as pessoas simples que deram corpo e alma a projectos que contribuíram para a formação do povo e para a construção das comunidades. 
Na Gafanha da Nazaré também aconteceu assim, não obstante se reconhecer hoje que os gafanhões foram, realmente, os primeiros obreiros esforçados, na labuta diária que imprimiram à transformação das dunas em terra de pão. Sem ajudas conhecidas, sem orientações capazes, sem infraestruturas onde pudessem escudar-se, sem ninguém por perto a quem se atrevessem a dirigir olhares de súplica.
E porque é difícil escolher nesse baú um ou outro nome, sem correr o risco de cometer injustiças graves, penso que a palavra Gafanhão encarna a melhor definição para o homem e a mulher que, de braço dado, deram vida e alma à criação da freguesia e paróquia, cujo centenário foi celebrado em 2010.
Honra, portanto, a esses bravos que nos legaram herança tão expressiva, como é a terra que habitamos.

Fernando Martins

quarta-feira, 22 de março de 2017

Fundadores: Prior João Ferreira Sardo



O Prior Sardo é figura incontornável na história dos cem anos da freguesia da Gafanha da Nazaré. Gozou do privilégio de ser filho da nossa gente, irmão na fé e na determinação de quantos contribuíram para o desenvolvimento espiritual e social do nosso povo.
Educador das verdades proclamadas pela Igreja Católica, foi também político, ao jeito do tempo, lutando pela promoção da comunidade em várias frentes. E se, no dia a dia da sua missão pastoral, não esquecia as obrigações de pastor atento e responsável, como autarca procurou trazer a água ao seu moinho. 
O Padre Sardo, o sacerdote e o político, mas também o empresário, cedo terá compreendido que a Gafanha da Nazaré, como freguesia e paróquia, só teria a ganhar, ganhando também os gafanhões. 
Senhora do seu destino, independente da paróquia e freguesia de São Salvador, pensaria pela sua própria cabeça e poderia projetar-se no futuro escolhendo os caminhos mais acessíveis e delineando os rostos da sua identidade.
Com este carrego de ideias, juntou boas vontades, propagandeou projetos, defendeu princípios e pôs-se à frente de quem queria ser freguês da sua freguesia. E a freguesia nasceu e a paróquia continuou como elemento integrador dum povo.
Em escrito publicado no Boletim das Festas das Bodas de Diamante da Freguesia da Gafanha da Nazaré, o Padre José Fidalgo, sobrinho-neto do Prior Sardo, refere que «A estrutura moral deste sacerdote nota-se, sobretudo, na sua vida de serviço humilde à comunidade e de obediência colaborante ao seu bispo. Quantas dificuldades teve de vencer como capelão desta terra, onde as suas gentes misturavam uma religiosidade primitiva com uma superstição, envolvendo a vida do dia a dia! Nomeado pároco, cria um novo estilo de comunidade que vai desde uma catequese de crianças a adultos, de retiros para jovens (particularmente Filhas de Maria), de pregação da Palavra de Deus em tríduos e semanas.»
E mais adiante, sublinha, a propósito da Pia Batismal, que ele, «com tanto carinho», adquiriu para a igreja matriz: «Ele mesmo a recebeu em festa quando ela desembarcou ali para os lados da Cale da Vila. Ainda bem que ela hoje se encontra na nossa igreja, no lugar que lhe é próprio…»

Fernando Martins

quinta-feira, 16 de março de 2017

D. Manuel Correia de Bastos Pina — Bispo de Coimbra

O Bispo que criou a nossa paróquia 
em  31 de agosto de 1910

Bispo-Conde de Coimbra


D. Manuel Correia de Bastos Pina nasceu a 19 de Novembro de 1830 na freguesia de Carregosa, concelho de Oliveira de Azeméis.
Filho de António Correia de Bastos Pina e de Maria Joaquina da Silva, abastados proprietários rurais, foi batizado a 24 do mesmo mês. O pai chegou a desempenhar o cargo de presidente da Câmara de Oliveira de Azeméis.
A sua família contava vários padres, entre os quais dois irmãos. Depois das primeiras letras veio para Ílhavo, onde recebeu lições do Dr. José António Pereira Bilhano (viria a ser Arcebispo de Évora) que o preparou nas matérias de retórica e língua francesa. 
Educado nos princípios do constitucionalismo, recebeu a ordenação presbiteral em 25 de Novembro, com 24 anos de idade. Como Bispo de Coimbra, D. Manuel Correia de Bastos Pina foi «uma das figuras mais marcantes da Igreja em Portugal na segunda metade do século XIX e inícios do século XX», como se lê em “O Bispo de Coimbra D. Manuel Correia de Bastos Pina”, de A. Jesus Ramos. Faleceu em 1913.
O Bispo-Conde de Coimbra tinha uma natural simpatia por Aveiro. Estudou em Ílhavo e mais tarde acompanhou o percurso de D. João Evangelista com manifestações de estima e proximidade. Dele disse  D. João que «era uma figura poderosa de bispo, cheio de prestígio e vida», como se lê em "Lima Vidal no seu Tempo". [1] 
Noutra passagem da mesma obra, o autor informa: «Muitas vezes esteve em Aveiro o bispo-conde e até se dirigiu aos arciprestes, párocos e clérigos dos concelhos de Aveiro, Ílhavo, Vagos e Mira, escrevendo-lhes uma carta pastoral sobre a Ria que tem a data de 30 de Janeiro de 1891;(…) Também pôs à disposição do arcipreste de Aveiro a quantia de duzentos mil réis para ajudar os pescadores mais necessitados a fazerem a substituição das redes de pesca, em obediência ao regulamento oficial. 
Não consta que tenha visitado a Gafanha propriamente dita, mas esteve em Ílhavo…
Em 31 de agosto de 1910 decretou a ereção canónica da nossa paróquia.
A sua fotografia pode ser vista na sacristia da nossa igreja matriz. 

Fernando Martins

[1] Gaspar, João Gonçalves, “Lima Vidal no seu tempo”, I Vol, pág. 104

quinta-feira, 9 de março de 2017

D. Manuel II — Último Rei de Portugal

 O rei que decretou a criação 
da paróquia e freguesia 
da Gafanha da Nazaré 



O último Rei de Portugal, D. Manuel II, nunca esperou vir a sentar-se no trono do Reino. Tão-pouco havia sido preparado para tais funções. Era segundo filho e o trono, por herança dinástica, seria para seu irmão Luís Filipe. 
Quis o destino, como diz o povo, que o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, de triste memória para quem acredita que os problemas dos povos como dos países não têm que ser resolvidos pela força das armas, de forma traiçoeira, o levasse a sentar-se na cadeira que tinha sido ocupada por seu pai, o Rei D. Carlos.
D. Manuel sobe ao trono com apenas 18 anos. Sem a preparação adequada, enfrentou imensos problemas, que ia ultrapassando com a ajuda de políticos que considerou capazes, mas que não estiveram à altura de impedir os avanços da República. E face aos conselhos que os mais próximos lhe dirigiam para que interviesse junto dos partidos, monárquicos e republicanos, de várias correntes, escreveu em Maio de 1909: «Querer que o rei intervenha nas lutas entre os políticos parece-me um erro. Muito interferiu meu pai, e bem triste fim teve.» [1]
Na visita que fez a Aveiro, em 1908, foi recebido com pompa e circunstância, colhendo aplausos das forças vivas e do povo em geral. Políticos republicanos, no entanto, não estiveram com meias-medidas e puseram de lado a arte de bem receber. Intitularam, no jornal “O Democrata”, a visita do Rei como “A real bambochata”.
D. Manuel II passou pela Gafanha da Nazaré, visitou as obras da Barra e regressou a Aveiro, pela Ria. Numa sessão solene, na Câmara Municipal, condecorou um gafanhão, António Roque, que conduziu o barco em que viajou, com a «medalha de mérito, philantropia e generosidade».[2]
Em 1910, no dia 23 de Junho, abre as portas legais para a criação da freguesia e paróquia da Gafanha da Nazaré com decreto que terá sido o último que assinou para esse fim.
Pouco depois, aquando da implantação da República, em 5 de Outubro, segue para o exílio em Inglaterra. Respeitou quanto pôde e o deixaram o novo regime, nunca escondeu o seu amor à Pátria e aos portugueses. A República também o respeitou, atribuindo-lhe uma pensão para que pudesse viver com dignidade longe dos portugueses.
Com saudades da Pátria, morre a 2 de Julho de 1932, vítima de um edema da glote. 
A 2 de Agosto, o Governo de Salazar «toma a iniciativa da sua trasladação, decretando um funeral de Estado. O corpo do último rei de Portugal fica depositado em S. Vicente de Fora» [3]

Fernando Martins

Nota: O retrato do Rei pode ser visto na sacristia da igreja matriz

[1] e [3] D. Manuel II, ”O Rei sem Trono”, Margarida Melo, Século XX, PÚBLICO.
[2] “D. Manuel II e Aveiro”, Armando Tavares da Silva.