O Papa apresentou o desporto como “um lugar de encontro e igualdade”, que pode “construir comunidade através de pontes de amizade”. Foram palavras do Bispo de Roma, na receção, no sábado passado, às duas equipas que iam realizar o jogo do projeto ‘Um pontapé na exclusão’: a equipa do Papa, designada ‘Fratelli tutti’, composta por guardas suíços, funcionários do Vaticano, filhos de funcionários e sacerdotes, e uma representação da Organização Mundial dos Ciganos. Entraram na partida um jovem jogador com síndrome de Down e três migrantes, acolhidos pela comunidade católica de Santo Egídio.
Nada tem isto a ver com o triste espetáculo a que os interesses económicos reduziram o desporto nos nossos dias, nomeadamente o futebol. Interesses económicos que transformaram a competição sadia em cenário de fingimento de agressões, de faltas intencionais, desacatos, insultos, autênticas batalhas, que envolvem jogadores, direções, árbitros, claques… corrupção vergonhosa, alienação preocupante, até ao ponto de se condicionarem resultados, para desviar adversários do caminho ou para os humilhar.
Sobram alguns gestos de exceção: solidariedade ocasional com situações de desgraça, atitudes de ‘fair-play’, como esta de Pedro Sousa, jogador do Dínamo Sanjoanense, que abdicou de marcar um golo ao Saavedra Guedes, no duelo da 2.ª Divisão de futsal, depois da lesão do guarda-redes adversário, recebendo um cartão branco pelo gesto de ‘fair-play’, aplaudido por todos, desde ao adversários aos colegas de equipa e aos adeptos presentes.
“Não importa quem marca mais golos, porque o golo decisivo já o fazem juntos, o golo que faz vencer a esperança e que dá um pontapé na exclusão” - afirmou o Papa, elogiando “um estilo de paixão desportiva vivida com solidariedade e gratuidade, com um espírito amador e inclusivo”. Estas cenas não chegam aos painéis de comentadores. Preferem atropelar-se uns aos outros, acirrando paixões clubísticas, em vez de sublinharem alguns escassos dados positivos, os quais, esses sim, poderiam criar mentalidade de convivência alegre, de companheirismo, de desenvolvimento pessoal e social.
É uma colossal tarefa educativa essa que nos desafia. Hoje, os pais correm com os filhos, pouco mais do que acabados de nascer, para treinos e jogos, com um espírito de fomentar o estrelato competitivo a todo o preço, sem qualquer preocupação de educação nestes valores que o desporto pode proporcionar: trabalho em equipa, desenvolvimento físico pessoal, convivência social, entretenimento saudável, hábitos de disciplina e honestidade… Sonham e incutem nos seus filhos sonhos de imaginários craques, com dinheiro fácil e vida sem ‘linhas vermelhas’, mesmo que deixando vítimas pelo caminho.
Urge encontrar outras estratégias, assumir matrizes de valores nobres, desenvolver projetos educativos desportivos que sejam autênticas aliciantes para as gerações vindouras, que lhes proporcionem o gosto de ‘caminhar juntos’ na vivência do desporto, a partir da experiência desportiva. Seria um bom caminho para preparar o Natal - uma experiência de proximidade, de simplicidade, de transparente fraternidade.
Editorial de o “Correio do Vouga”

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