Na vida apressada que levamos, nem sempre nos apercebemos das dificuldades que muitas famílias da nossa terra enfrentam no dia a dia, por razões muito diversas. Contudo, o Grupo Cáritas Paroquial (GCP) está atento e age, em parceria com outras instituições e departamentos concelhios ou nacionais, apoiando inúmeras famílias, carentes e em risco social, contando com a ajuda de 40 voluntários. Todos os meses, em dia previamente anunciado, procede à distribuição de cabazes de produtos alimentares, não descurando outros apoios.
Conversámos, no dia 17 de Abril, com o GCP, num espaço da nossa Igreja Matriz, onde sentimos o empenho e o espírito de proximidade cultivado com os que chegam, com dramas que revelam as causas das situações precárias em que se encontram, muitas provocadas pelo desemprego, baixos salários, famílias desfeitas, doenças e outros motivos.
Segundo o relatório referente a 2020, o GCP apoiou 98 famílias, no total de 252 pessoas, para além da entrega de 32 cabazes de emergência destinados a 83 pessoas. No total, foram distribuídos 278 cabazes de bens alimentares.
Durante o ano transato, os géneros alimentares distribuídos correspondem a mais de 20 mil euros, para além de outras ajudas. Os subsídios mais significativos vêm da Câmara de Ílhavo, da Junta de Freguesia e de diversas empresas, mas o contributo mais expressivo vem da população, em géneros, estimados em mais de oito mil euros. O Banco Alimentar contribui com apenas 5 % para o GCP.
Importa referir que todo este trabalho do GCP é feito em rede com a Equipa de Coordenação do Atendimento Social Integrado de Ílhavo, para não haver duplicação no fornecimento de ajudas e para dar respostas concretas ao maior número possível de pessoas e famílias em situação precária.
Durante a visita, tivemos a oportunidade de conversar, em privado, com três senhoras, residentes na Gafanha da Nazaré, que estão a ser acompanhadas pelo GCP. Uma venezuelana (neste texto designada por A), uma portuguesa (B) e uma brasileira (C). Não sei os nomes nem registei fotografias.
A venezuelana veio para a Gafanha com um português, pai do seu primeiro filho. Empregou-se, mas quanto ganhava era depositado na conta bancária dele, que ela não podia abrir conta por não estar legalizada. Tempos depois, o seu companheiro ligou-se a outra mulher e a nossa entrevistada ficou numa situação complicada e sem dinheiro.
Continuou a trabalhar e iniciou, entretanto, outra ligação, também com um português, do qual ficou grávida. Trabalhou na Zona Industrial da Gafanha da Encarnação, como operária fabril, estando agora desempregada. Em conflito com o seu segundo companheiro, acabou por ficar só e com dois filhos. Um frequenta a Obra da Providência e aprendeu depressa a falar português.
Com habilitações na área do Direito e da Gestão, ainda não conseguiu o reconhecimento das suas habilitações em Portugal e não está interessada em regressar ao seu país por razões ligadas à instabilidade social da Venezuela. Como desempregada, ainda não recebeu o subsídio correspondente à sua situação. Está a passar um momento muito difícil e o GCP está atento, contribuindo para a alimentação e compra de medicamentos, água, luz e renda. Está muito grata por isso.
B tem cerca de 80 anos, divorciada há 15, três filhos, vive sozinha e trabalha numa seca de bacalhau. Sempre foi uma mulher de trabalho e apresenta-se com um dinamismo que não denota a idade que tem. Quando se divorciou, teve um problema de saúde muito grave, que lhe deu direito a um subsídio por doença. Tem vivido com muitas dificuldades e o que lhe tem valido são os seus patrões, “uns santos”, fez questão de dizer. Refere que os filhos, muito seus amigos, também vivem com problemas e com o que ganha não consegue levar a vida para a frente, vendo-se forçada a recorrer à Cáritas. B frisa que não quer estar a incomodar os filhos.
Conta que um dia lhe avariou o carrinho, necessário para as suas deslocações. Ficou aflita, mas o patrão arranjou-lhe outro utilitário que pagou aos poucochinhos. Com a sua idade, trabalha das sete da manhã às seis da tarde. E sente-se feliz assim. Louva a generosidade do seu patrão e agradece à Cáritas que a tem ajudado nos momentos mais difíceis.
C é brasileira e está em Portugal há um ano. Veio com uma amiga para a ajudar a cuidar do filho dela. Entretanto, a amiga conheceu um rapaz e C ficou sozinha, sem trabalho e sem conhecer ninguém. Ela foi embora em Setembro, mas pagou a renda até Dezembro. Então, passou a trabalhar em limpezas, tratamento de roupas e no que é preciso. Tem dado para algumas despesas, mas para a renda, 150 euros, água e luz é muito complicado. O seu grande sonho é ter uma oportunidade de emprego, com contrato, para se sentir segura, mas tal ainda não surgiu. No Brasil trabalhou numa escola como auxiliar. Como ainda não se legalizou, não tem seguro nem regalias sociais.
Confessou que veio para Portugal porque o seu padrasto não gostava dela e que o seu sonho é conseguir legalizar-se e arranjar um emprego para ser independente no nosso país. “Eu tenho objetivos e hei de chegar lá; eu acredito que Deus me vai ajudar”, disse.
Fernando Martins


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