sexta-feira, 19 de março de 2021

O Papa Francisco, “Peregrino da Paz"

Papa Francisco e líder Xiita, Al-Sistani


O Papa Francisco, mais uma vez, surpreendeu o mundo ao realizar esta histórica viagem, tendo como objetivo fazer-se próximo para aquele pequeno resto de cristãos que se manteve firme nas perseguições movidas pelo Proclamado Estado Islâmico. Segundo as estimativas, nos últimos anos de Saddam Hussein, no Iraque, haveria pouco menos de dois milhões de cristãos que, ao tempo, não eram perseguidos. Hoje, porém, estão reduzidos a 200/300 mil. O Papa assume esta viagem emblemática como um “dever”, evocando esta terra martirizada.
Na catedral de São José, da histórica comunidade caldeia, em Bagdade, recorda os “mártires” do último século e quem sofre “perseguições” pela sua fé cristã. Afirma que “Jesus na cruz provou ser mais forte do que o pecado; no sepulcro derrotou a morte. Foi este mesmo amor que tornou os mártires vitoriosos na provação…. E houve tantos no último século, mais do que nos anteriores”. A lógica cristã é a lógica das Bem-aventuranças. A inversão é total: os pobres, os que choram, os perseguidos… esses são declarados Bem-Aventurados.
O Papa recomenda aos cristãos “a paciência de Deus” porque “o amor não se indigna mas recomeça sempre. Muitos perderam tudo, foram perseguidos, expulsos… mas tudo aquilo que o mundo tira, não é nada em comparação ao amor terno e paciente com que o Senhor cumpre as suas promessas”. O Papa pretende mostrar que o caminho do amor fraterno é possível, contrariamente aos caminhos da violência, da hostilidade, do extremismo e da perseguição usados contra estas comunidades cristãs, vítimas do Proclamado Estado Islâmico apoiado pela Al-Qaeda. Em Ur, o Papa rejeita o terrorismo e a violência em nome de Deus e considera que “nenhum crente pode ficar calado” quando o terrorismo abusa da religião”. Aliás, em Mossul, bastião do Proclamado Estado Islâmico, perante as ruínas das quatro igrejas destruídas, o Papa afirma que “se Deus é o Deus da vida, não nos é lícito matar os irmãos em Seu nome. Se Deus é o Deus da paz, não nos é lícito fazer a guerra em Seu nome. Se Deus é o Deus do amor, não nos é lícito odiar os irmãos”. 
Depois desta peregrinação, ficam no ar alguns sinais de esperança. O Papa apelou ao respeito mútuo e ao diálogo no encontro que manteve com o líder Xiita, Al-Sistani, e este, por sua vez, pede paz e segurança para os cristãos. O simbolismo deste encontro vale mais do que qualquer assinatura de declarações conjuntas. Para a minoria cristã no Iraque, este encontro representa a esperança de que o país, dominado pelas milícias xiitas, abraça o “pluralismo e a diversidade”. Também como sinal promissor deste histórico encontro do Papa com Al-Sistani e da histórica celebração inter-religiosa na antiga cidade de Ur dos caldeus, terra de Abraão e berço da fé para os povos monoteístas, o primeiro-ministro iraquiano declarou o dia 6 de março como “Dia Nacional da tolerância e coexistência no Iraque”. De igual modo, se deseja para breve o terminar da reconstrução da Planície de Nínive e da reconstrução das igrejas destruídas na cidade de Mossul. 
Em Qaraqosh e em clima de festa, Francisco deixa uma mensagem de esperança a esta cidade de maioria cristã: “o terrorismo e a morte nunca têm a última palavra”. Já no último encontro, na missa celebrada no estádio de Erbil, com milhares de pessoas, o papa convida a perdoar e a evitar qualquer ideia de vingança depois dos sofrimentos dos últimos anos e, desejando marcar esta viagem como uma “viragem de página”, despede-se, emocionado, afirmando que “O Iraque ficará sempre comigo, no meu coração”.

Pe. César Fernandes

Nota: Editorial do TIMONEIRO, órgão da paróquia de Nossa Senhora da Nazaré

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