Crónica de Manuel J. Rocha
no "Correio do Vouga"
| Pe. Rocha, Vigário-geral da Diocese de Aveiro |
«Há dias em que madrugamos e julgamos que vamos encontrar Deus... Em vão, Deus levanta-se sempre mais cedo».
Esta frase, embora escrita ou dita em contextos diferentes, tem por autor o professor Eduardo Lourenço que recentemente nos deixou para ser acolhido nas mãos de Deus. Ao lê-la, vezes sem conta, dei por mim a imaginá-la em contexto de Natal e a dizer de mim para mim que o Natal é esse dia em que Deus se levanta mais cedo para nos orientar no caminho da estrela sem termos necessidade de madrugar.
Afinal, já no princípio do tempo, Ele se tinha levantado cedo para passear na sua "quinta do paraíso" e poder maravilhar-se com a harmonia da criação, aquela casa comum, criada com esmero e mestria ao longo de seis dias onde todos tinham direito a desfrutarem de tudo e a ocuparem todos os espaços sem medos ou barreiras. Mas o seu encantamento já não durou o dia todo porque à chamada daquele que tinha sido colocado com guardião, Adão - assim se chamava - não compareceu. Foi necessário insistir para que lá atrás das árvores, aquelas mais frondosas do canto do jardim, alguém respondesse com um "estou aqui" tão longínquo que Deus teve de se aproximar mais e mais. Olhou em volta e viu o seu primeiro par humano, ele e ela, cobertos com folhas porque o medo e a vergonha se tinham apoderado deles. Como deles se tinha apoderado a tentação de serem os donos, os novos deuses do paraíso a quem tudo e todos deviam obediência. Já era a tarde de um dia e o início de uma noite que nunca mais teve fim até surgir um novo dia, o dia dos dias, dia que não conhece ocaso, porque "... Deus se levanta sempre mais cedo". E esta é, também, uma história de Natal.
Mas a tentação da posse, do ter e do mandar, de invadir o céu e de se apoderar e prender Deus nunca mais abandonou o ser humano. "Há dias em que madrugamos e julgamos que vamos encontrar Deus..." que vamos criá-LO à nossa imagem e semelhança, amarrá-lo às nossas ideias e projetos, fazê-lo prisioneiro deste mundo e deste tempo. E passam na corrente do tempo a história de todos os imperadores e reis que se fizeram deuses e dignos de adoração, de paraísos prometidos em troco de uma liberdade que desembocou nos campos de concentração, chegando mesmo a anunciar a sua morte. Tudo em troca de uma luz que fazia da sua razão a esfinge que tudo decifra, interpreta e comanda. Mas esta luz apagou-se e o homem foi buscado de noite com uma lanterna na mão, porque tudo tinha desaparecido.
E foi aqui que uma outra luz brilhou. Descoberta lá para os lados do Oriente, foi ela que entusiasmou homens e mulheres de todas as cores e longitudes e os fez porem-se a caminho. Era uma multidão que ninguém podia contar. Os que se deixaram cativar, mais que senhores do mundo, tornaram-se peregrinos do mundo e anunciadores de um Deus outro impelidos pela mesma força: "Sobe à montanha, tu que anuncias boas novas a Sião. Levanta fortemente a voz, tu que anuncias boas novas a Jerusalém. Ergue a tua voz sem receio: ... Aí está o vosso Deus"! E essa luz encarnou, tornou-se presente neste mundo e eles "... encontraram um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura!". Lição de humildade sublime onde Deus quis habitar, deixando o poder e o mandar encerrado nas bibliotecas dos sábios e políticos do tempo, que mais não fizeram que trazer, de novo, a violência e a guerra para se apoderarem do mesmo Deus. Enquanto os Magos, depois de se terem desfeito dos seus presentes, regressaram a suas casas de mãos vazias.
Hoje como ontem, levantar-se de madrugada para nos apoderarmos de Deus, para sermos os primeiros na fila e ocuparmos os primeiros lugares, não rima com este Menino do presépio que vem até nós como o sol nascente e inunda em cada manhã o rosto daqueles que se fazem ao caminho, se despem das coisas supérfluas e aceitam como companheiros de viagem os pastores com cheiro a ovelha.
Ele já veio, vem e virá em cada hora e em cada tempo habitando a tenda das nossas casas e preparado para nos dar o bom dia de cada dia... por isso, não vale a pena madrugar porque Ele levanta-se mais cedo.
Manuel J. Rocha
NOTA;: Publicado no "Correio do Vouga"
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