sexta-feira, 6 de novembro de 2020

TUDO DITO

 Artigo/Crónica por António Rego 
no "Correio da Manhã"


Muitas vezes, à mesa, com amigos mais próximos, lembro-me da Última Ceia e até digo atrevidamente: isto está muito bem feito. O momento da Eucaristia com o pão, o vinho e a palavra que trocamos tem um tom sagrado que nos remonta à Última Ceia. Tem a ver com o Corpo, o Espírito, a Vida, a Intimidade, a Palavra. "Isto é o Meu Corpo, Este é o cálice do Meu sangue. " Foi aquela Ceia que se tornou no Grande Memorial e a ela se associou um dia - o domingo - em que os cristãos vivem o mesmo mistério composto de palavras simples mas com dimensão de infinito que transcende o tempo, o espaço e resume a mais bela história que a humanidade conhece. Muitos cristãos continuam a celebrar como o rito mais sagrado da sua vida.
Pode cair na rotina e celebrar-se na banalidade do simplesmente ritual e repetitivo. Mas como os cristãos não podem viver sem o domingo também este fica vazio sem a Ceia, antecipação da dádiva completa de Jesus pela humanidade - a sua própria vida.
"Fazei isto em memória de Mim". E aqui nos sentimos irmanados a milhares de milhões de cristãos que revivem a Ceia no rigor do rito e da Palavra. É pena que a rotina se tenha por vezes tornado mera obrigação, um gesto tão sublime e decisivo na vida dos cristãos.
"Ir à missa" é muito pouco para expressar a grandeza deste mistério. Sacerdote e comunidade têm de reunir nesse momento as melhores energias para louvar, pedir, celebrar o grande mistério da fé. Pergunto-me se não estarei a repetir uma cantilena de catequese. É mais, muito mais que isso. Na própria Eucaristia repetimos a sua definição mais rica: este é o Mistério da nossa fé. E assim fica tudo dito.
lá tinha prometido deixar apande- mia em paz a ver se também em paz nos deixa. Mas, segundo creio, nada se passou semelhante nas nossas histórias. A expressão mais frequente é que estamos no mesmo barco. Mas o barco tem proa e ré. E os balanços não são iguais em toda a nave. Quase todas as comparações falham.

António Rego

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