quarta-feira, 4 de novembro de 2020

A difícil inserção dos jovens na Igreja é causa da crise vocacional

SEMANA DE ORAÇÃO PELOS SEMINÁRIOS 

Assinalamos a semana de oração pelos seminários, este ano com o lema "Jesus chamou os que Ele queria e foram ter com eles" (Mc 3, 13). A acção central que esta perícope nos coloca está precisamente no acto de chamar, de vocacionar de Jesus.    Este episódio acontece no decurso da libertação que Jesus vai operando, na qual é acompanhado pelos seus discípulos. Como tal, estamos já a meio de um caminho, em que os discípulos já foram interpelados na sua circunstância para aprenderem e andarem com o Mestre. No momento presente, estes discípulos são novamente chamados no intuito de serem constituídos no grupo dos Doze, ou seja, para serem participantes da autoridade de Jesus para exercerem a mesma acção libertadora de Jesus. Assim, é-lhes atribuída uma missão, continuando a ser nela acompanhados pelo Mestre.
Daqui podemos inferir o caminho vocacional que Jesus tem: acolher e convidar ao seguimento, chamar para estarem com Ele, serem enviados em missão, sempre acompanhados pelo Senhor. Se este é um dinamismo da acção de Jesus na Palestina, é certamente também hoje, pelo Espírito Santo, acção que Deus realiza na nossa Igreja, e à qual, como discípulos, temos obrigação de corresponder.
Na grande pastoral das vocações da Igreja, a semana que vivemos convida-nos a rezar por aqueles a quem Deus chama e quer constituir como pastores do seu rebanho, para ensinar, santificar e reger numa porção do Povo de Deus, em comunhão com o bispo diocesano (Vaticano II, Presbyterorum ordinis, 8).
É nesta fase "(...) de estarem com Ele" (Mc 3, 13) que o Seminário desempenha a sua missão. É neste ambiente, que se quer de profunda comunhão eclesial, que a Igreja se empenha para que os jovens que aqui vivem possam crescer e formar-se para receberem a sagrada ordenação, ao mesmo tempo que esta procura acompanhar e discernir os sinais de chamamento do Senhor em cada candidato para a missão sacerdotal.


A formação dos Seminários tem vindo a ser revista e avaliada pela Igreja Universal. Este processo não é somente motivado pelos escândalos destes últimos anos, mas sobretudo para poder ir de encontro às características dos jovens do nosso tempo e às necessidades da Igreja no exercício da sua identidade e da missão presbiteral. As áreas da formação estão consolidadas desde o Concílio Vaticano II, no decreto Optatam totius, e são as dimensões humana, espiritual, intelectual e pastoral. Todavia as suas actualizações tiveram importante destaque no pontificado de S. João Paulo II, na Pastores dabo vobis e mais recentemente no documento da Congregação para o Clero, O dom da vocação presbiteral (2016). Importa salientar o cuidado de uma formação integral e de uma personalidade sã e equilibrada para poder viver o ministério com alegria e entusiasmo pela missão confiada, no meio de uma sociedade secularizada e sem grandes referências ao Transcendente.
Os tempos que vivemos não são favoráveis à cultura da vocação. O nosso tempo, marcado pelo adiar das decisões, das vidas sem horizonte de chamamento, do individualismo e da preocupação apenas com o dia-a-dia, não facilita a interrogação de fundo sobre o sentido de vida. É certo que a actual pandemia fez a sociedade perguntar-se sobre os seus fundamentos, mas urge anunciar a vida cristã como vocação de esperança e de entrega de vida, numa sociedade que cada vez mais se deprime, vazia de um sentido maior. Neste momento, a depressão psíquica é das doenças que mais afecta a nossa sociedade, sinal, que apesar de toda a complexidade latente, nos deve interpelar no anúncio da esperança cristã.
Por outro lado, os nossos jovens vão vivendo cada vez mais afastados da Igreja, muito embora tantos tenham feito todo o percurso catequético, e celebrado todos os sacramentos da iniciação cristã. Os últimos censos à prática dominical na Diocese de Aveiro mostram-nos como a vivência do Domingo, elemento central da vida cristã, não é valorizado por estes.
A dificuldade da inserção real dos jovens na vida da Igreja é causa importante para a crise vocacional que vivemos. A vocação é dom de Deus, é chamamento para construir a vida em comunhão com Jesus Cristo, é espaço para a plena realização da pessoa no amor. Não ter consciência disto é uma pobreza e deve interpelar-nos a todos na nossa missão.
Neste momento, a Diocese de Aveiro tem três seminaristas: dois iniciaram o seu percurso no ano propedêutico em Caparide e temos mais um jovem a estudar no Seminário dos Olivais no 3.º ano. No próximo dia 8 de Dezembro teremos a ordenação presbiteral dos diáconos Nuno Gonçalves e Fábio Freches.
O Pré-Seminário existe para acompanhar os rapazes e jovens adultos que se questionam pela vida sacerdotal. Neste momento, e por causa da pandemia que vivemos, as actividades promovidas não acontecem no Seminário, mas em doze grupos espalhados pela diocese. Não tenhamos medo de convidar os jovens a participar.
Por fim, queremos manifestar a nossa gratidão a todas as comunidades paroquiais e tantos benfeitores, que sobretudo por esta altura contribuem monetariamente para o sustento do Seminário e das suas instâncias formativas. Para isso, podem fazê-lo no ofertório das missas no dia 7 e 8 de Novembro, assim como pela promoção das bolsas de formação sacerdotal.
No final gostaríamos de convidar todos a participar na vigília de oração pelos Seminários na sexta-feira, 6 de Novembro, pelas 21 horas, na igreja de S. Tiago de Beduído e no Domingo, 8 de Novembro, pelas 16 horas, na Igreja do Seminário. São ocasiões especiais para termos presente a importância da promoção das vocações sacerdotais.

P.e João Santos 
Reitor do Seminário de Santa Joana Princesa

NOTA: Texto publicado no semanário da Diocese de Aveiro, "Correio do Vouga"

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