Numa sala com as portas e janelas seladas, um pequeno rasgo de luz pode iluminar todo o espaço. Por muito que nos custe, este vírus foi o minúsculo organismo que iluminou as nossas fragilidades. Porém, este é o tempo certo para renovarmos o olhar sobre os dias que vivemos.
Recentemente ouvi a história de numa paróquia italiana, em que os prédios onde vivem os paroquianos ficam próximos da Igreja. Dada a necessidade sanitária do distanciamento social, o sacerdote começou a celebrar a missa no telhado. A liturgia que expressa o modo de nos unirmos a Deus em oração renovou-se sem perder a profundidade espiritual. Mas nem tudo renova, ainda que se revista daquilo que o mundo considera como novo. Como é o caso do investimento maior na vida digital.
A conectividade online permanente intensificou-se, mas a fragilidade dos relacionamentos reais revelou-se. Casais que antes se viam de manhã e à noite, passaram a estar mais tempo juntos e descobriram que não se conseguiam suportar mais.
Antes da Covid-19, o tempo em que as pessoas conseguiam manter a sua atenção estava a diminuir pelo consumo excessivo de conteúdos digitais, por exemplo, nas redes sociais. Após a Covid-19, com a multiplicação de tantos Zoom’s, Google Classrooms, etc., mais tempo se passa diante dos ecrãs. O cansaço ganhou uma nova dimensão, revela a fragilidade sobre o modo como gerimos a nossa atenção, e as consequências para o olhar (nos seus múltiplos significados) são ainda desconhecidas.
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