«Sem a intrepidez da procura nunca chegaremos nem aos pés chagados de Jesus»
Sem dar por isso, nasci numa ilha. Tive de a deixar cedo porque nela não existia o produto que eu procurava.
Foi a primeira grande lição que se me impôs: as coisas não vinham ter comigo, não nasciam debaixo dos pés. Tínhamos nós de as ir procurar, com paciência, coragem e dor, para revelar o que estava oculto, trazer o que parecia irremediavelmente sufocado num sepulcro tenebroso nunca tocado por um raio de luz.
A nossa primeira lição era expulsar essas sombras e revelar a luz do dia, fatigada de uma noite interminável e sem vislumbre de promessa.
É uma noite, uma treva. Nem um clarão (lembro o meu cantar de contralto já nas novenas do Natal: "Nem um clarão já nos reluz guiar-nos, vinde ó bom Jesus, à Pátria da eterna luz").
Não terminou o velho combate entre a luz e a treva. E a verdade é que não estamos a jogar com as palavras ou apenas a pintar de letras luminosas as nossas ridículas poesias de Natal.
Continua a luta entre a luz e as trevas. E mesmo na pista ou na simbólica, não nos libertaremos deste duelo feroz oriundo da expressão que, mesmo muito explicada, nunca será compreendida por inteiro. E é verdade. Mas que havemos de fazer? Resta-nos a coragem da procura. Fomos aprendendo que sem a intrepidez corajosa da procura nunca chegaremos nem aos pés chagados de Jesus. São os mesmos no presépio e no alto da cruz.
Semeão bem avisou. Ávida daquele Menino não ia ser fácil. O drama começou nas condições do seu nascimento. No silencio arrogante de grande parte do mundo. Na humildade imensa de José e Maria.
Nesse púlpito, o presépio que foi o primeiro grande lugar de pregação e no seu grande silêncio irrepetível peça de oratória que a humanidade jamais esqueceu. E que numa voz doce ouvimos ressoar estes dias.
António Rego
Padre
Publicado no "Correio da Manhã"

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