quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Não acredito em Fátima


Um artigo de Vítor Espadilha 
no Correio do Vouga

Santuário de Fátima
Não sou eu quem o diz. Dizem muitos, mesmo os que lá vão muitas vezes. E de modo muito forte. Fátima não é dogma de fé. Não é pecado não acreditar nas aparições marianas ou nas devoções. Tudo quanto Deus quis dizer ao Homem, já o disse pelo Seu Filho Jesus Cristo, Sua Palavra Revelada. Está tudo nas páginas da Sagrada Escritura. Nada mais a acrescentar. Pode- -se aclarar pelo magistério da Igreja, pelo estudo da teologia e exegese, pelo desenvolvimento da ação litúrgica, que não parou em Trento. Depois de Trento já houve mais dois concílios, vários sínodos, muito estudo e progresso da compreensão bíblica e da nossa relação com Deus. Também os Santos do Vaticano II aí estão, a provar que Deus não dormiu nem parou a Igreja em determinada época da história...
As aparições ou as revelações privadas podem servir de subsídios para alguns, mas não para todos. Nem todos sabem de Paray le Monial, de Alexandrina de Bala- zar, Marta Robin, Teresa Newman, Catarina Emmerich, Faustina Kowalska, De Rue du Bac, Pellevoisin, Knock, Pontmain, Banneaux, Beauraing, Illi Bouchard, La Salette, Lourdes e Fátima. O conteúdo das mensagens é interessante. Mas a esmagadora maioria dos que se deslocam a estes locais nada mais sabe do que ser um lugar de culto que teve manifestação sobrenatural, aprovada pela Igreja, pois mais de 200 locais esperam o estudo da Igreja, como Garabandal, Escoriai, Medjugorje...
As aparições mudaram vidas de indivíduos. Sem dúvida. Mas uma simples vela colocada num altar de Paris, porque brilhava mais intensamente, foi o suficiente para um ateu como André Frossard se converter e nos deixar vida e obra magníficas, como o livro "Deus existe. Eu encontrei-O". Como ele, Eva Levaliere, Edith Piaf, Paul Claudel, Pasteur, Charles de Foucauld, Teresa de Calcutá, entre milhares.
Deus não precisa de templos, nem de imagens para falar ao coração do Homem. A sua Palavra e seu Espírito habitam entre nós. E numa esquina da vida, Ele pode falar... Por isso, as aparições marianas não trazem nenhuma novidade à fé. Mas são convites para os que, nas suas variadas manifestações, se sentirem chamados a Deus, por este caminho.
Fátima aconteceu? Eu digo que sim. O padre Mário da Lixa, que conheço e de quem gosto, diz que não. Fina d'Armada disse ser um fenómeno extraterrestre, do mesmo tipo que aqueles que têm sido usados para tentar explicar a própria Bíblia, por exemplo, no Canal História.
Mas de uma coisa eu sei - e duas vou dizer.
Primeira: Se Maria não apareceu ali, não temos dúvidas de que está ali e ali atua. Isto sente-se. Há contradições na mensagem, chocam os segredos serem revelados depois de acontecer, e os argumentos pró e contra são interessantes. Como em Schoenstatt ou Czestochowa, ou qualquer outro local mariano sem aparições, a presença e a ação de Deus são tão reais como os locais de aparições. Nossa Senhora de Vagos, de Albergaria-a-Velha, Santa Maria da Serra de Talhadas, ou a das Neves de Vila Nova, mais o santuário da Auxiliadora de Mogofores... Todos falam tão alto de Maria e da Sua mensagem, que bem podemos dizer que ali Maria continua "aparecendo" na sua missão de Mãe e Educadora. Até no teu quarto diante da imagem que alguém te ofereceu um dia, ou na tua cama, quando fechas os olhos e pensas em Nossa Senhora.
Segunda: Se por um lado o que deu crédito a Fátima - ou a Lourdes - foi a vida heróica, na Fé, dos videntes, o que mais afasta de lá é o que os olhos de um bom observador captam se frequentarmos demasiado estes espaços: Gente que se promove e promove a sua imagem a todo o custo, entendidos da dita mensagem que a anunciam como a única verdade, o desprezo e a marginalização do pequeno, mesmo sendo sacerdote, em tantas ocasiões, obras de caracter artístico duvidoso que chocam a maioria e, sobretudo, uma terrível ignorância dos pontos da mensagem por parte do povo que nada aprende sobre ela nas suas paróquias.
Vai-se a Fátima para cumprir promessas, para conviver e passear, mas a proporção do povo no recinto e nos confessionários choca. A quantidade de pessoas que lá vão e prescindem da Missa, mesmo sendo Domingo, choca. A falta da reza do terço diário, que foi o que mais Maria pediu, além de uma verdadeira mudança de vida, choca, porque, mesmo entre os consagrados, as práticas de Fátima são desconhecidas e não se praticam.
Por isso, acredito na aparição e na sua repercussão no mundo, mas quanto à eficácia de transformar mentes, pessoas e vidas, fica muito a desejar para que se considere algo de autêntico.
Se acreditamos que o catolicismo é a verdadeira religião, pois Jesus é o único Deus e Salvador da Humanidade, também sabemos que o que torna a religião verdadeira é o modo como cada um a assume e vive (salvaguardando a objetividade da doutrina e da mensagem)... E nisso podemos dizer que um hindu vive verdadeiramente a sua fé e todos os crentes de todas as crenças podem fazer da sua fé a verdadeira religião e salvar-se. O mesmo acontece com Fátima. Só será verdadeiro subsídio para a Fé quando, à luz da Bíblia, cada um que acredita no fenómeno como vindo do Céu viver as suas exigências e se transformar numa pessoa melhor e acreditar que pode, assim, melhorar o mundo.

Vitor Espadilha

Publicado no Correio do Vouga em 9 de janeiro de 2019

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