Texto de João Gonçalves Gaspar
para a história da Diocese de Aveiro
Na ocorrência do 80.° aniversário da assinatura do documento que, em 11 de dezembro de 1938, executou a bula pontifícia Omnium Ecclesiarurn, pela qual o papa Pio XI restaurou a Diocese de Aveiro, tomo a liberdade de recordar umas memórias pessoais do ano de 1938, quando eu contava oito anos de idade e frequentava a segunda classe da Escola Primária.
A ideia da restauração foi-se concretizando a partir de 1924, em conversas ao balcão da loja dos ovos moles, na rua de Coimbra, Aveiro, de que era proprietária D. Conceição Maria os Anjos. Algumas pessoas, tanto católicas como agnósticas, partilhavam os seus pareceres, que sucessivamente iam passando à realidade. Decorridos breves anos, o arcebispo D. João Evangelista de Lima Vidal também se deixou convencer pelo singular benefício para Aveiro... e inscreveu-se como fazendo parte da respetiva Comissão Promotora. Eram importantíssimas as suas relações com personagens da Santa Sé, especialmente com o Secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Eugénio Pacelli (futuro papa Pio XII), de quem fora contemporâneo nos estudos universitários em Roma, habitando na mesma residência, o Colégio Caprânica.
Com as suas dificuldades e as suas demoras, o processo foi decorrendo; apesar de certas oposições da parte de quem menos se esperava, chegou-se a 1938 e os pormenores delineavam-se concretamente. Os limites não iriam obedecer ao primeiro projeto, superiormente proposto, o qual também incluía os concelhos de Ovar e de Mira; a Diocese passaria a incluir os seguintes concelhos: - Três do Porto (Albergaria-a-Velha, Estarreja e Murtosa); seis de Coimbra (Águeda, Anadia, Aveiro, Ílhavo, Oliveira do Bairro e Vagos); e um de Viseu (Sever do Vouga).
Foi por esta ocasião, que eu ia ouvindo o que o meu pai, com plena satisfação, dizia à noite, em ambiente familiar, porque antes se informava junto do nosso pároco, padre Manuel da Cruz; eu próprio também prestava atenção ao que este sacerdote transmitia à estação da Missa dominical. Para Eixo, a minha terra natal, a restauração da Diocese tinha uma vantagem específica; além de esta vila ser vizinha de Aveiro, ela era a terra do nascimento dos antepassados do "Senhor Arcebispo".
Entretanto, chegou o dia 28 de outubro de 1938, que era sexta- -feira; durante a tarde, a esperada notícia da restauração da Diocese tornou-se pública. Então, comecei a ouvir o estralejar de muitos e estrondosos foguetes, cujo barulho parecia proveniente de Aveiro. O nosso pároco, contente e feliz, divulgou logo a feliz nova pelas lojas, farmácias e barbearias, a qual facilmente se espalhou pela freguesia; e o meu prof. João de Pinho Brandão não se coibiu de nos informar na escola. Os sinos da igreja matriz teimavam em tocar à festa.
Mas, além disso, o principal da manifestação desta alegria verificou-se no domingo, dia 30: - Depois da Eucaristia, além do toque dos sinos, foi o lançamento demorado de foguetes e os acordes da Banda Recreativa Eixense ao longo da artéria principal da povoação. Tínhamos um bispo em Aveiro e ele era um nosso semi-conterrâneo, da família Gonçalves Lima!...
Pessoalmente, vivi e vivo o dia-a-dia da Diocese de Aveiro, colaborando proximamente com cada um dos seus bispos. Não desconsiderando nenhum deles, recordo aqui o interesse incansável de D. João Evangelista, para conseguir a unidade da Diocese: - Visitas aos sacerdotes e interesse pela sua vida espiritual, visitas pastorais às paróquias que começaram na Vera-Cruz e em Eixo, congressos eucarísticos em sedes arciprestais, internato de todos os seminaristas em Aveiro, construção do edifício do Seminário de Santa Joana com o auxílio de peditórios e de cortejos de oferendas, semanas de estudo e de adaptação pastoral, etc. E tudo isto, entre muito mais, vai prosseguindo de ano a ano, para bem de todos os diocesanos.
João Gonçalves Gaspar
Padre e historiador
Fonte: Correio do Vouga
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